As emissões baseadas em blockchain somaram R$6,87 bilhões até julho de 2026, com a CVM criando divisão dedicada ao tema e a ANBIMA testando a tecnologia em projeto-piloto com 51 instituições
A tokenização de ativos financeiros deixou de ser um experimento restrito a projetos-piloto para se tornar uma frente de crescimento relevante no mercado de capitais brasileiro. Em 2026, foram emitidos 684 ativos tokenizados, que movimentaram R$6,87 bilhões até julho, um salto de mais de 120% no volume de emissões em relação ao período anterior, sustentado majoritariamente por operações estruturadas sob a Resolução CVM 88. Debêntures, notas comerciais e recebíveis de diferentes setores, incluindo saúde, já figuram entre os ativos registrados de forma tokenizada, movimento que a ID CTVM acompanha de perto como parte de sua estratégia de modernização tecnológica.
Registro distribuído amplia rastreabilidade dos ativos
A tecnologia de registro distribuído, base da tokenização, permite que a titularidade de um ativo financeiro seja registrada em uma estrutura descentralizada e auditável, reduzindo a dependência de um único ponto central de controle e ampliando a rastreabilidade de cada movimentação ao longo da vida do título. Para ativos como debêntures e recebíveis, essa característica pode simplificar processos de escrituração e liquidação, ao mesmo tempo em que exige dos administradores fiduciários um entendimento técnico aprofundado sobre a infraestrutura tecnológica que sustenta cada operação tokenizada.
Segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, a tokenização representa uma evolução natural da escrituração eletrônica que já sustenta boa parte do mercado de renda fixa privada brasileiro.
“A lógica não é totalmente nova, já vivemos a migração de títulos físicos para registros eletrônicos centralizados. A tokenização é o próximo passo dessa jornada, com registros distribuídos e maior automação de eventos como pagamento de juros e amortizações”, explica o executivo.
CVM cria estrutura dedicada ao acompanhamento do tema
A Comissão de Valores Mobiliários criou a Divisão de Tecnologia Financeira, unidade dedicada a acompanhar o avanço da tokenização, das tecnologias financeiras e da inteligência artificial no mercado de capitais brasileiro. Paralelamente, um projeto-piloto conduzido pela ANBIMA, com participação de 51 instituições, testa a aplicação prática de tecnologia de registro distribuído em operações do mercado de capitais, reunindo administradores fiduciários, custodiantes, gestoras e outras entidades interessadas em avaliar o potencial da tecnologia em ambiente controlado antes de uma adoção mais ampla.
A ID CTVM é habilitada pela CVM e pela ANBIMA para exercer administração fiduciária, custódia qualificada, controladoria e escrituração de fundos e títulos estruturados. A companhia opera infraestrutura tecnológica proprietária integrada por APIs, base que facilita a avaliação de novas tecnologias de registro e liquidação à medida que amadurecem no mercado brasileiro.
Adoção deve ocorrer de forma gradual e seletiva
Para Balassiano, a adoção da tokenização pelo mercado de capitais brasileiro deve seguir um caminho gradual, priorizando classes de ativos em que a tecnologia traga ganhos claros de eficiência.
“Não faz sentido tokenizar por tokenizar. A tecnologia deve ser adotada onde reduz custo, aumenta transparência ou amplia o acesso a um tipo de ativo. Esse critério deve guiar a expansão nos próximos anos, mais do que qualquer modismo”, acrescenta o diretor da ID CTVM.
Interoperabilidade entre plataformas é desafio técnico
Um dos principais desafios para a expansão da tokenização no mercado brasileiro é a interoperabilidade entre diferentes plataformas de registro distribuídas utilizadas por gestoras, custodiantes e securitizadoras. Sem um padrão técnico amplamente adotado, cada operação tokenizada pode depender de uma infraestrutura específica, dificultando a comunicação entre sistemas e elevando o custo de integração para os agentes envolvidos na cadeia de custódia e liquidação. Entidades como a ANBIMA têm atuado justamente para aproximar esses diferentes participantes em torno de padrões comuns, testando no projeto-piloto em curso soluções que possam ser replicadas de forma consistente em futuras emissões tokenizadas de diferentes classes de ativos.
Custódia qualificada segue exigida mesmo em ativos tokenizados
A ID CTVM é habilitada pela CVM e pela ANBIMA para exercer administração fiduciária, custódia qualificada e controladoria também sobre ativos emitidos de forma tokenizada, reforçando que a mudança na forma de registro do ativo não elimina a necessidade de agentes independentes responsáveis por verificar a conformidade regulatória de cada operação. A companhia soma mais de R$53,48 bilhões em ativos sob administração e custódia, base que sustenta a capacidade técnica de avaliar novas modalidades de registro à medida que ganham espaço no mercado de capitais brasileiro.
Mercado deve seguir em fase de maturação tecnológica
A expectativa entre especialistas é que a tokenização de ativos financeiros continue crescendo no Brasil nos próximos anos, à medida que a infraestrutura regulatória e tecnológica amadurece e mais classes de ativos passam a ser registradas dessa forma. Para administradores fiduciários e custodiantes, acompanhar de perto essa evolução tecnológica, sem abrir mão do rigor regulatório que sustenta a confiança do investidor, deve seguir como um equilíbrio central nos próximos anos de desenvolvimento do mercado.

