O valuation caiu, mas as fusões e aquisições não pararam

Emi Takavara
Por Emi Takavara 5 Min de leitura
Pedro Daniel Magalhães

O número de fusões e aquisições no Brasil segue elevado, mesmo em um cenário de juros altos que deveria, em teoria, esfriar esse tipo de negócio. A contradição chama atenção: o volume de transações se mantém firme, mas o valor pago por cada empresa comprada encolheu de forma expressiva. Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação no mercado financeiro, crédito estruturado e gestão corporativa, destaca que essa combinação só faz sentido quando se entende o papel da taxa de desconto na conta do comprador.

Múltiplos de transação que giravam bem acima de dez vezes o lucro operacional das empresas passaram a rondar patamares mais modestos, mesmo sem queda relevante nos resultados operacionais das companhias avaliadas. O motivo não está no negócio em si, mas na régua usada para medi-lo.

O que a taxa de desconto faz com o valor de uma empresa?

Todo valuation baseado em fluxo de caixa descontado converte o dinheiro que a empresa deve gerar no futuro em um valor presente, usando uma taxa que reflete o custo de capital e o risco do negócio. Quando essa taxa sobe, cada real de lucro projetado para daqui a alguns anos vale menos hoje, porque o comprador poderia obter retorno parecido em aplicações bem mais seguras.

O efeito é mais forte em empresas que prometem crescimento futuro do que em empresas que já geram caixa robusto agora. Uma companhia cujo valor depende de projeções distantes sofre mais com a alta da taxa de desconto do que uma empresa madura, com resultado presente e previsível.

Por que o volume de negócios não caiu junto com o preço?

Indica-se, entre profissionais de fusões e aquisições, que compradores estratégicos com caixa próprio ganharam espaço justamente porque dependem menos de financiamento externo para fechar negócio. Enquanto fundos alavancados recuam diante do crédito mais caro, empresas capitalizadas aproveitam a compressão de preços para comprar concorrentes ou fornecedores a um custo menor do que pagariam há poucos anos.

Pedro Daniel Magalhães
Pedro Daniel Magalhães

Esse movimento, como comenta Pedro Magalhães, explica por que o número de transações resiste mesmo com o valor total do mercado oscilando. Compradores com caixa disponível não têm pressa, mas também não abrem mão de aproveitar um momento em que ativos bons custam menos do que custavam.

O lado do vendedor: por que negociar mesmo com valuation menor?

Para quem vende, aceitar um valuation mais baixo costuma ser resultado de necessidade, não de escolha livre. Empresas mais endividadas, pressionadas pelo custo do crédito, recorrem à venda de ativos ou de participações justamente para reduzir alavancagem e preservar o caixa da operação principal.

A partir de sua atuação em crédito estruturado, Pedro Daniel Magalhães revela que esse tipo de venda tende a ser mais bem-sucedido quando parte de um planejamento financeiro anterior à negociação, não de uma decisão tomada sob pressão de credores. A diferença aparece no poder de barganha durante as tratativas.

O que muda quando os juros começam a cair?

À medida que a taxa básica recua, a taxa de desconto usada nos modelos de valuation tende a cair junto, o que sustenta múltiplos mais altos e reabre espaço para financiamento alavancado em compras. Operações que ficaram represadas por divergência de expectativa entre compradores e vendedores voltam a se viabilizar.

Esse é o momento em que o mercado costuma ficar mais seletivo, não menos. Compradores com caixa disponível passam a escolher entre mais opções, e a exigência sobre governança, previsibilidade financeira e organização contábil das empresas à venda tende a aumentar, não diminuir.

O que essa dinâmica ensina sobre o momento de negociar?

O descompasso entre volume de negócios e valor pago revela algo maior do que uma fase de mercado: mostra que preço e apetite por negociar obedecem a lógicas diferentes. Uma empresa pode estar mais barata e, ainda assim, mais disputada, porque o comprador certo enxerga valor onde a taxa de desconto esconde parte dele.

Entender esse mecanismo, tal como sugere Pedro Magalhães, importa mais do que acompanhar manchetes sobre o volume de fusões e aquisições: é o que separa quem negocia com margem real de quem aceita a primeira oferta que aparece.

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